quinta-feira, 1 de outubro de 2009

VIDA RELIGIOSA, REALIZAÇÃO E MISSÃO ou REPETIÇÃO E ATUALIZAÇÃO DE CONFLITOS...


VIDA RELIGIOSA, REALIZAÇÃO E MISSÃO ou REPETIÇÃO E ATUALIZAÇÃO DE CONFLITOS...



É muito comum presenciarmos (pra não dizer que somos nós mesmos) pessoas que vivem sofrendo, pessoas que tem sempre uma grande razão para sofrer. Estão insatisfeitas, parece que tudo e todos estão contribuindo para a sua preocupação, o seu sofrimento, a sua dor.
Tem pessoas que simplesmente vão arrastando a sua vida, repetindo algo que é desagradável, indesejável, enfim, que é doloroso. Porém, parecem não querer ou poder mudar de vida. Parece que carregam um fardo ou uma cruz muito pesada. Mas o que é mais estranho é que a pessoa não larga este peso. Ao presenciarmos alguém assim, no primeiro momento corremos o risco de perder a paciência e abandonar tal pessoa, porém trata-se de algo muito mais complexo do que parece.
Chamo a atenção aqui, para uma categoria, aos olhos de muitos, e equivocadamente, aos seus próprios olhos, como alguém que não tem problemas, que só tem solução, ou ao menos uma palavra certa na hora certa. Refiro-me aqui, às pessoas que se encontram na Vida Religiosa e/ou Sacerdotal. Estas são pessoas muitas das vezes queridas, admiradas e buscadas pelos leigos como alguém que possa lhes indicar uma solução para os seus problemas, como alguém que tem uma resposta pronta, uma solução para os seus problemas, “religiosos”, afetivos, profissionais; enfim, como um verdadeiro sábio que poderá com muita facilidade dizer: meu filho faça isso... Faça aquilo... Resolvendo assim o seu problema.
Tal confiança que vem de fora, por um lado é positiva, e tem mesmo a ver com a proposta da Igreja àqueles que nela se ingressam: estar a serviço da Igreja e do povo de Deus. Mas esta mesma confiança que por um lado é uma forma de reconhecimento e confiança na consagração/ordenação feita por este sujeito, por outro lado, joga o sujeito numa certa solidão e desolação, de modo que ele acaba se sentindo só, como alguém que tem que responder às necessidades de um povo muita das vezes sofrido e cansado. E neste caso, aos poucos, o religioso ou padre sente-se muito só e angustiado, às vezes sofrendo, mas sem saber o que fazer para se ajudar, senão através da oração e das celebrações as vezes tão solenes, mas em alguns casos tão distante da sua própria vida sofrida e pesada.
Em um livro de John Power, que eu não saberia dizer agora o nome, ele afirma que o poder nos torna cada vez mais solitários. Ele se remete à figura do padre. Durante a sua caminhada, este é amigo de todos, ou pelo menos não é temido ou respeitado excessivamente pelos demais, pois trata-se apenas de mais um postulante, seminarista ou noviço, um como os outros. Mas à medida que este vai avançando na sua formação, vai passando por etapas diferentes: professo simples, professo solene, diácono, sacerdote, superior, prior, às vezes bispo e outras coisas mais. À medida que isto vai acontecendo, o mesmo vai se tornando referência e autoridade diante das demais pessoas, e também diante da sua própria comunidade. Às vezes amadas, mas também odiadas ou ao menos temidas. Certo é, que vai se tornando cada vez mais importantes, as vezes pessoas respeitadas por suas habilidades e indiscutivelmente com um status, um título até hoje respeitado até mesmos pelos mais laicos.
Agora a questão é: como é que uma pessoa tão “importante” pode precisar de ajuda, pode procurar alguém “menor” do que ele, senão para exercer uma simples atividade? Pois é, deste modo as buscas às demais pessoas, pode ser apenas para resolver uma questão simples, uma atividade operacional apenas. Mas onde é que está a subjetividade deste sujeito paramentado de santidade, pessoa que lida com “o sagrado”, que atende confissões dos pecadores, que fala para os casais que estão em crise? Pessoa que na sua função de profeta, anuncia e denuncia, pessoa que fala de amor, justiça, fraternidade e solidariedade, mas que às vezes vive tão só. E em alguns casos em distonia com muitas dessas questões?
Isto acontece não necessariamente por arrogância do religioso e/ou sacerdote, mas em muitos casos porque a demanda que lhe é dirigida é tão grande que ele parece não ter o direito de demandar. Vale lembrar que algumas palavras do ritual da profissão religiosa contribui para esta situação, para este sentimento mesmo que forçado, de superioridade: “você está sendo despido do homem velho e revestido do homem novo”. Frases como esta, em si não são nada mal, ao contrário, são até muito positivas, e deveria ser para todos, mas é utilizado na nossa profissão, criando assim um diferencial ideológico e até utópico em relação a este “novo homem”.
Outra questão que me parece bastante relevante é o estilo de vida que levamos, normalmente em casas grandes, confortáveis e bém montadas, mesmo que seja em bairros da periferia. Somos direcionados para os estudos e um pouco de pastoral (neste caso somos pastores e os demais são ovelhas). Criamos nas nossas casas uma espécie de debate, muitas das vezes filosóficos, fazendo do refeitório aerópagos e/ou auditórios, repetimos Platão, Sócrates e outros mais em discursões as vezes intermináveis, mas isto nem sempre predomina, até porque não leva a lugar nenhum. Mas que por alguns momentos nos faz sentir superiores, e muitas das vezes buscamos mesmo sustentar esse lugar de detentor do saber e até mesmo da verdade.
Bom, voltamos então à questão do sofrimento, razão pela qual foi feita toda uma analogia numa tentativa de remeter à complexidade do nosso estilo de vida e da nossa complexidade. O que pode nos afetar tanto positivo quanto negativamente. Tendo em vista a missão da Igreja, e o seu desejo de contribuir para um mundo melhor, razão que a coloca em uma situação privilegiada em relação às demais instituições, sabemos, e não podemos em momento algum ficar ingênuos diante dos candidatos que aparecem, pois várias são as razões que contribuem para esta busca. E não podemos esquecer que para cada instituição, para cada congregação ou ordem religiosa, existe um perfil diferenciado, de acordo com o seu carisma e a sua missão.
Mas se determinada comunidade religiosa deixa de levar em conta esses critérios, o que acontece é um amontoado de gente, cada um caminhando em uma direção, com um mesmo discurso, porém com uma prática e objetivos diferentes. E assim corre-se o risco de “ir levando a vida e a formação”, cada um na sua. Cada um com o seu poder, com a sua função e mais tarde, com a sua paróquia, “eu não mexo com você, e você não mexe comigo” um verdadeiro pacto de sobrevivência.
Deste modo, pode-se resultar em pessoas tristes, solitárias e sem muita perspectiva, direcionando suas necessidades inclusive afetivas a coisas, objetos e até mesmo a pessoas, porém sem nunca admitir a realidade, o que realmente buscam e/ou desejam. E o pior de tudo, raramente buscando ajuda, até porque nesta altura, já não se acredita mais na possibilidade. Acaba se acomodando ao sofrimento, e quando o mal aperta, recorre ao chás, afagos e carinhos de pessoas mais próximas, as vezes tomando um calmante e dizendo que está estressada, que é devido ao excesso de trabalho. E assim vai levando a sua vida amargurada, mas sem nunca enfrentar a verdadeira situação, sem buscar ajuda de um profissional adequado. Enquanto isso, o corpo padece com as mais diversas formas de conversões e fenômenos psicossomáticos.
Outra situação comum entre as pessoas, e portanto também no meio religioso, é a questão da culpa. Tentarei exemplificar tal situação: certa pessoa tem uma origem humilde, ou seja, veio de uma família pobre, bastante sofrida. Mas esta pessoa, ao contrário da sua família consegue estudar, e sobretudo ao se tornar religioso, consegue uma posição de destaque, de status até; tornando-se referência ao menos na sua família; porém, esta pessoa não consegue se dedicar livremente à sua conquista. É como se estivesse traindo da sua família e ignorando as suas raízes. A pessoa sente como se estivesse se apropriando de algo que não lhe pertencesse, e em muitos casos, não dá conta de levar uma vida digna e comunitária. Acaba estragando tudo, seja em comportamentos que não condizem com a sua condição, ou até mesmo em bebedeiras ou atitudes de inferioridade, arrogância ou embotamento junto à sua comunidade, tornando-se um peso para os demais, seja pela sua radicalidade, por sentir-se exluído ou pela indiferença.

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